Com o início do SPFW N60 nesta segunda-feira (13), os holofotes se voltam não apenas para as passarelas, mas também para o que as roupas contam sobre o futuro. De frutas ao fungo, a revolução dos biomateriais avança — mas o desafio da indústria é garantir que o novo luxo não repita velhos padrões.
Na maré de coleções que chegam nesta temporada, uma tendência potente vem, aos poucos, tomando as passarelas nacionais e internacionais. Marcas de luxo e designers independentes estão transformando biomateriais que seriam descartados em bolsas, roupas, sapatos e acessórios que desafiam o reinado do couro animal.
Alguns exemplos disso são o Biocuero, criado pela marca espanhola Sentèz a partir da casca de banana; o beLEAF, desenvolvido no Brasil com a planta orelha-de-elefante; e o Mylo, à base de cogumelo — materiais que vêm redefinindo o que significa vestir a natureza.
“Levamos quase dois anos para desenvolver este material a partir da casca da banana e estamos muito satisfeitos com o resultado”, diz Claudia Epszteyn, fundadora da Sentèz. Produzido com 70% de resíduos industriais, incluindo cascas de frutas e celulose bacteriana, o material não exige processos contaminantes ou altas temperaturas e pode ser compostado ao fim da vida útil.
O processo é circular e quase poético: o que seria lixo vira bolsa e, depois, fertilizante. Segundo Epszteyn, são necessárias cerca de 18 cascas da fruta para produzir uma peça de tamanho médio.
Do outro lado do Atlântico, o brasileiro André de Castro, diretor de marketing da beLEAF, acredita que a força dos biomateriais está em sua autenticidade — e não na tentativa de imitar o couro tradicional.
“Não estamos tentando parecer o couro bovino, mas abraçar a cara natural da folha”, explica. A empresa, que já firmou parcerias com grandes grifes, desenvolveu um processo de biocurtimento capaz de transformar folhas em um material durável, mantendo 100% de sua textura.
Além de biodegradável, o produto apresenta performance semelhante ao couro animal e pode receber diferentes acabamentos. Ainda assim, há desafios: eliminar completamente o uso de polímeros sintéticos na composição segue sendo uma meta em desenvolvimento.
Entre os nomes que apostam nessa nova geração de matérias-primas está o designer pernambucano Marlu Fonseca, fundador da Leoniê, com foco no design regenerativo brasileiro.
“A marca nasceu do desejo de mostrar que o luxo pode ser bonito, desejável e, ainda assim, ter alma, impacto e responsabilidade”, explica.
Suas criações unem design autoral a materiais como couro de cacto, borracha amazônica, fibras recicladas e outros compostos de base vegetal. Cada peça traz dados ambientais e sociais, como rastreabilidade e origem da produção, além de um design modular que reduz o consumo excessivo.
“O couro vegetal ainda pode ser até três vezes mais caro do que o couro tradicional, mas esse custo representa investimento em futuro, não um obstáculo.”
Para o designer, substituir o couro foi uma decisão ética, estética e estratégica. Ética, por rejeitar o sofrimento animal; estética, por valorizar texturas naturais; e estratégica, por acreditar que o futuro da moda pertence a quem une inovação e responsabilidade.
“O verdadeiro luxo será o que preserva, não o que destrói.”
Mas a questão que ecoa por toda a indústria permanece: até que ponto essas alternativas são, de fato, sustentáveis?
Para especialistas, é essencial analisar todo o ciclo de vida dos materiais — do cultivo à decomposição. Sem essa visão completa, existe o risco de apenas substituir matérias-primas, mantendo os mesmos padrões de impacto.
A reflexão ganha força em um cenário em que a moda é responsável por uma parcela significativa das emissões globais e ainda recicla pouco dos resíduos que gera. Ao mesmo tempo, cresce o interesse do consumidor por marcas sustentáveis — o que também aumenta o risco do greenwashing.
Alguns biomateriais ainda dependem de componentes sintéticos para garantir resistência, enquanto outros enfrentam desafios de escala e produção.
No fim, o avanço mais relevante pode não estar apenas na substituição do couro, mas na transformação do próprio modelo da indústria.
Um novo material só cumpre seu papel quando vem acompanhado de práticas mais conscientes, produção reduzida e transparência real.
O futuro da moda — e do luxo — depende desse equilíbrio.
Crédito: Matéria originalmente publicada por gshow, por Francielly Kodama
Link: https://gshow.globo.com/comportamento/moda/noticia/da-casca-de-banana-ao-fungo-veja-como-as-marcas-estao-substituindo-o-couro-animal.ghtml
